Brincadeiras de deputados
Carta enviada para a Folha de São Paulo em 1.11, mas não publicada.
Senhor editor
duas notícias hoje na Folha mostram que a Câmara dos Deputados continua não podendo ser levada a sério, pelo menos por gente séria.
De um lado, o deputado Cunha Lima renuncia ao mandato para não ser julgado pelo STF por um crime comum: o de tentativa de homicídio.
Mas alega que o faz porque deseja ser julgado como um homem comum. Seria até um gesto de nobreza, se não fosse uma brincadeira. Afinal, depois de esperar 14 anos no foro privilegiado, só às vésperas do julgamento é que o deputado descobre em si uma vontade de ser alguém comum.
E, no fundo, ele deve espera que ao menos uma dezena de anos passe novamente antes do julgamento como um homem que se revelará mais do que os comuns, porque pode pagar advogados dos bons.
Imagino que os seus advogados buscarão todas as "chicanas" judiciais para adiar o máximo o julgamento. Possivelmente o crime chegue à prescrição. Ou, então, o agora ex-deputado sequer esteja vivo para ser julgado por um tribunal do júri.
Por outro lado, o deputado Fernando Ferro, do PT, pede e o presidente da Câmara, também do PT, autoriza o desarquivamento do projeto de emenda que permitiria reeleição sem limites.
Até um cego pode enxergar a razão do interesse pela tramitação da medida. Mas justo agora quando Lula declara que não deseja um terceiro mandato? Parece que os dois deputados petistas resolveram brincar de pirraçar o presidente do país e de honra do seu partido.
E depois os deputados vêm a público dizerem-se bastante preocupados com a imagem do congresso junto ao povo.
Mas eles queriam o quê?
Atenciosamente
Simão Pedro Marinho
Escrito por Simão Pedro às 06h28
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