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Crise e aceleração do crescimento
Lula continua falando do PAC, que, jura, não permitirá que o Brasil sofra a crise que, ele afirmara no início, era apenas uma marolinha. E tome obras públicas, ainda que muitas fiquem no papel, outras só recebam parte pequena das verbas necessárias. O essencial é mostrar ao povão que ele, o pai dos pobres, está fazendo sua parte. E que o Obama, já que agora não tem mais Bush, trate de fazer a dele. Afinal a crise não é dos Estados Unidos? O risco é que passemos milênios sem que as obras estejam concluídas. Mas que importa? Afinal, o que interessa mesmo é eleger Dilma em 2010. O resto o povo, como é usual, cuidará de esquecer. Santa falta de memória. 
Escrito por Simão Pedro às 14h38
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Jornal do Presidente
Lula não gosta de ler jornais. Eles lhe dão azia, como declarou há pouco tempo, em entrevista para a Revista Piauí. Acho que Lula só gosta de ler pesquisa que mostra o aumento acelerado de seu índice de popularidade. Isso é bálsamo, não causa problema ... pelo menos para ele Claro que Lula jamais quererá saber o que, de fato, provoca essa popularidade. Ou sabe, mas finge que não. A charge de Jean, publicada ontem na Folha de São Paulo, é fantástica. 
Escrito por Simão Pedro às 14h23
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Por qué no te callas?
Artigo de Ferreira Gullar, publicado na Ilustrada da Folha de São Paulo de hoje. O texto é de uma obviedade fantástica. Mas a maioria do povo brasileiro não a vê.
Por qué no te callas? Lula fala, fala, fala, viaja, viaja, viaja; o resto do tempo faz política
| MINHA GENTE , estou a cada dia mais perplexo com a performance do nosso presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Não que ele tenha mudado essencialmente; nada disso, ele se comporta assim desde o primeiro dia de governo: não desce do palanque. Às vezes me pergunto se minha crescente perplexidade decorre dessa sua insistência que já dura sete anos ou de alguma outra coisa. Acho que são as duas: por um lado, já não aguento ouvi-lo falar pelos cotovelos, gesticular e postar-se como um ator num palco e, por outro, percebo-o cada vez mais à vontade para dizer o que lhe convenha, conforme o momento e conforme o público. Sem nenhum compromisso com a verdade e com a postura de um chefe de Estado. Ele não se comporta como chefe de Estado. Fala sempre em termos pessoais, ou louvando-se a si mesmo sem qualquer constrangimento ou acusando alguém, seja a imprensa, seja a oposição, sejam as classes ricas, sejam os países ricos. Estão todos contra os pobres, menos ele que, felizmente, assumiu o governo do Brasil para salvá-los, após quatro séculos de implacável perseguição. Do Descobrimento até 2003, ninguém sabe como o Brasil conseguiu sobreviver, crescer, chegar a ser a oitava economia do mundo, sem o Lula! Só pode ter sido por milagre ou qualquer outro fator inexplicável. A verdade é que, apesar de tudo, o país resistiu até o momento em que ele, Lula, chegou a tempo de salvá-lo. Isso ele afirma com uma veemência impagável, como se fosse a coisa mais óbvia e indiscutível do mundo. Sem rir, o que é mais surpreendente ainda, diante do olhar espantado de favelados, trabalhadores, funcionários públicos, aposentados. Já quando o público muda, ele também muda o discurso. Se fala para empresários, banqueiros, exportadores, a conversa é outra. Mostra-se preocupado com o crescimento da economia, com o apoio do BNDES à iniciativa privada e chega mesmo a admitir que sem os empresários o país não cresceria. E o balanço de final de ano mostra que os bancos realmente nunca ganharam tanto dinheiro como durante a gestão presidencial do fundador do Partido dos Trabalhadores, que se dizia inimigo número um deles. Joga com um pau de dois bicos, mas dá certo. Diz uma coisa para os pobres e o contrário para os ricos, mas dá certo. Tanto que a sua popularidade cresce a cada nova pesquisa de opinião. Na última delas, o índice de aprovação de seu governo alcançou mais de 70% e a dele, presidente, mais de 80%. Ele fala, fala, fala, viaja, viaja, viaja; o resto do tempo faz política. Há uma cumplicidade esquisita: Lula finge que governa, e o povão finge que acredita. Mas, infelizmente, os números da estatística não conseguem cegar-me. Pelo contrário, ao ver tamanha aprovação a um presidente da República, que busca deliberadamente engazopar a opinião pública, preocupo-me. Para onde estamos sendo arrastados? Até quando e até onde conseguirá Lula manipular a maioria dos brasileiros? Essas considerações me ocorreram ao ler o discurso que ele pronunciou, no Rio de Janeiro, na favela da Mangueira, ao inaugurar uma escola. De ensino não falou, claro, já que não lê nem escreve. Anunciou a intenção de usar prédios públicos desativados como moradia de sem-teto. E aproveitou para mostrar como os ricos odeiam os pobres: disse que os ricos da avenida Nove de Julho, em São Paulo, não querem deixar que gente pobre venha morar ali, num prédio público desocupado. "Mas nós vamos colocar, porque a moradia é um direito fundamental do ser humano." Palmas para ele! Nessa mesma linha de discurso para favelados, defendeu as obras do PAC, afirmando que a parcela mais pobre da população é que será beneficiada, e aduziu: "Quando a gente faz isso, perde apoio de determinada classe social, porque gente rica não gosta que a gente cuide muito dos pobres". O discurso, como sempre, é atrapalhado mas suficientemente claro para que a mensagem seja entendida: os ricos odeiam os pobres, que só contam com Lula para protegê-los. A conclusão é óbvia: se o Lula é o pai dos pobres, quem se opõe a ele certamente os odeia e ama os ricos. Assim como se apropriou de tudo o que antes combatera, improvisou o tal PAC, um aglomerado de projetos pré-existentes de empresas estatais, governos estaduais e municipais, que vai desde o pré-sal até a ampliação de metrôs e o trem-bala. Mas o investimento do governo federal é de apenas 0,97% do PIB, menos do que investiu FHC em 2001. Se tudo o que está ali é viável ou não, pouco importa, desde que sirva para manter Lula e Dilma sob os holofotes.
Escrito por Simão Pedro às 14h34
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O fumo na Era Digital, cigarro "pós-moderno"
O mundo, que continua "i-mundo", é cada vez mais "e-qualquer coisa". E-learning, e-commerce, e-government. E tem até a e-cola, o nome que dou à a cola eletrônica, aquela do CTRL+C/CTRL+V que muitos alunos praticam quando são solicitados, por professores despreparados, a fazer pesquisas sem significado algum. Pois agora tem o e-fumo. Ou seria o e-cigarro? Transcrevo o artigo de Helen Thomson, editora da New Scientist, traduzido e publicado pela Folha de São Paulo no Caderno Mais! de hoje. E-fumo O cigarro eletrônico virou febre antes de ter seus benefícios testados, o que só começa a acontecer agora - e os resultados parecem positivos Eu nunca fui fumante, então, sentada no balcão do bar, com a mão no queixo, tento lembrar como Audrey Hepburn fazia. Trago gentilmente e expiro. Uma névoa branca envolve meu rosto enquanto espero o barato da nicotina chegar ao meu cérebro. As pessoas começam a olhar. Então o inevitável acontece: "Ei, aqui não pode fumar". Só que neste caso eu posso, porque não estou fumando. Eu acabo de "acender" um e-cigarro. Parece um cigarro de verdade e, com cada tragada, alguns microgramas de nicotina de um cartucho descartável deveriam chegar ao meu pulmão. Meu e-cigarro até produz "fumaça" - mas não queima, então, não é proibido. No número crescente de locais públicos onde o fumo é banido, uma nova raça de fumante surgiu, tragando essas bugigangas. Os e-cigarros podem ajudar os fumantes a escapar à proibição, mas também ajudam-nos a fugir das consequências do tabagismo ou a largar o vício? Em setembro do ano passado, a Organização Mundial da Saúde divulgou um comunicado afirmando que não havia evidência alguma de que eles pudessem ajudar a largar o vício. Então, o que nós sabemos sobre eles? Os e-cigarros foram inventados por Hon Lik, da empresa de aparelhos eletrônicos Ruyan, na China. O primeiro foi vendido em 2004. A Ruyan diz ter vendido mais de 300 mil unidades em 2008.
O aparelho parece um cigarro normal, mas, em vez de conter tabaco, tem uma pilha e um LED. O filtro descartável contém um cartucho com nicotina dissolvida em propilenoglicol, o líquido das máquinas de fumaça de danceterias. Quando você traga, um sensor de pressão liga uma resistência que vaporiza o propilenoglicol e solta a "fumaça". O cartucho mais forte contém a mesma quantidade de nicotina de um cigarro normal, mas dura 300 tragadas, contra 15 de um cigarro. No entanto, em cada tragada, o cartucho mais forte libera apenas um terço da nicotina de uma tragada num cigarro normal, diz Murray Laugesen, que estuda os e-cigarros.
Buraco legal Até aqui tudo bem. Mas será que os e-cigarros são realmente menos perigosos? Você pode pensar que alguma organização independente já tenha tentado verificar. Longe disso. Na maioria dos países o e-cigarro escapa à regulamentação. "Se você diz que um produto tem efeito sobre a saúde, ele se torna um remédio e passa por regulamentação", diz John Britton, pneumologista da Universidade de Nottingham (Reino Unido). "Se é um produto da combustão de tabaco, esse produto é um cigarro". O e-cigarro não é nem um nem outro, o que dá aos fabricantes liberdade total. Para complicar ainda mais as coisas, algumas empresas que dizem que os e-cigarros ajudam a cortar o vício citam uma aprovação falsa da OMS. Laugesen é um dos poucos pesquisadores que lidam com a questão. No começo de 2007, ele começou um programa de pesquisas para investigar os riscos potenciais do cigarro eletrônico. A pesquisa é bancada pela Ruyan, mas Laugesen insiste em que ela é independente, visão partilhada pela OMS. Os resultados preliminares parecem positivos. Ele descobriu que cada tragada libera só alguns microgramas de água, álcool, nicotina, propilenoglicol e flavorizantes. Mas e quanto ao risco de substâncias cancerígenas? Apesar de traços delas terem sido encontrados no e-cigarro -mais provavelmente pegando carona na nicotina derivada de tabaco dos cartuchos-, Laugesen diz que sua concentração não é diferente da dos adesivos de nicotina. O que preocupava o pessoal do bar era o fumo passivo. Embora o cigarro eletrônico não produza monóxido de carbono ou os carcinógenos da combustão, o cartucho contém aldeído acético -o causador da ressaca, que pode ser cancerígeno se se acumular no corpo. No e-cigarro, no entanto, os níveis são baixos e podem ser facilmente quebrados pelo organismo. Nem todo mundo se convence de que o cigarro eletrônico ajuda mesmo a parar de fumar. "Sem exames de sangue, é difícil confirmar se a nicotina está chegando à corrente sanguínea", diz David Burns, que pesquisa doenças relacionadas ao tabaco na Universidade da Califórnia em San Diego, EUA. Se não chega, não ajuda. Laugesen está estudando esse assunto e submeteu seus resultados ao encontro anual da Sociedade para Pesquisa da Nicotina, que acontece em abril na Irlanda. E quanto aos elementos psicológicos do vício? Será que um fumante comum aceitaria um e-cigarro no lugar do de verdade? Eu decidi descobrir com um experimento não-científico: dei um para meu pai, que fuma um maço por dia. Ele não gostou. Mas, justiça seja feita, meu pai não pensa em parar. Marco Munafo, da Universidade de Bristol, Reino Unido, suspeita que uma parte do problema resida em outras substâncias dos cigarros reais. Apesar de a nicotina ser o componente viciante primário, há outros componentes na fumaça que alavancam seu potencial. Estudos com animais sugerem que substâncias na fumaça que não são a nicotina inibam 40% da atividade da enzima monoaminaoxidase (MAO). A nicotina causa a liberação do neurotransmissor dopamina, cuja ação está ligada a sensações prazerosas do fumo. Já foi sugerido que a inibição da MAO poderia diminuir a recaptação de dopamina, potencializando o efeito do fumo. O TobReg (Grupo de Estudos da OMS para Regulamentação do Tabaco) realizou uma reunião em novembro de 2008 para debater o destino dos e-cigarros. A conclusões serão publicadas só em setembro, mas há sinal de que um parecer vai incluir propostas de regulação mais rígidas: por exemplo, a venda do e-cigarro seria restrita a farmácias. O tabagismo eletrônico em lugares fechados também seria vetado até haver evidências de que ele não prejudique fumantes passivos.
Escrito por Simão Pedro às 13h58
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Analfabeto
Há muito o governo Lula insiste em errar nos números da educação pública de São Paulo. Claro que tenta mostrá-los pior do que já são, buscando faturar com isso. Desqualificando ainda mais uma educação já desqualificada - contudo a indigência da educação pública não está restrita a São Paulo - Lula bate em um potencial candidato à presidência da república em 2010. E, não seria tão louco pensar nisso, prepara terreno para Fernando Haddad, seu ministro da Educação, ocupar o Palácio dos Bandeirantes a partir de 2011. Sobre o erro da semana passada e a tentativa - risível, convenhamos - de manipulação posterior do que Lula dissera, feita pela Secretaria de Imprensa da Presidência, Marcelo Leite fez um artigo interessante, publicado no Caderno Mais! da Folha de São Paulo de hoje. Analfabetos em números Os colchetes inventados para salvar a cara do presidente não funcionaram
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Pior que errar é não reconhecer o erro - ao qual todos estão sujeitos, afinal. O presidente Lula errou feio quando se meteu a falar de analfabetismo em São Paulo e no Brasil, em comício para prefeitos. Não se corrigiu, oferecendo constrangedora demonstração pública de inabilidade tanto com números quanto com fatos. Sua máquina de propaganda, sob o nome de Secretaria de Imprensa da Presidência, tentou justificar o deslize. Fez circular "esclarecimentos" sobre o discurso para "proporcionar seu correto entendimento". Insinuou, nas entrelinhas, que o erro fora dos jornalistas presentes, mas em verdade protagonizou um típico caso de emenda pior que o soneto. Aos números e aos fatos, portanto: uma verdadeira salada presidencial. Lula afirmou: "No Sudeste, nós temos 5,7% de analfabetos. Mas, pasmem, caiam de costas, Kassab, porque você não sabia e eu não sabia: no Estado de São Paulo nós ainda temos 10% de analfabetos no Brasil. O Estado mais rico da Federação". Uma emenda orwelliana da secretaria agregou à transcrição da fala, entre colchetes, a expressão "do total", coisa que Lula não pronunciou, nem parece ter tido em mente. Na versão retocada, a frase ficou assim: "No Estado de São Paulo nós ainda temos 10% [do total] de analfabetos no Brasil". O índice correto de analfabetismo em SP, ou seja, a parcela da população do Estado nessa condição, é 4,2%, como informa o "esclarecimento". O que o texto não destaca, como deveria para dar o quadro interpretativo correto, é que essa é a quarta melhor taxa brasileira (atrás só de DF, RJ e SC). A média nacional, outro parâmetro de comparação, é 9,2%. Os 10% de Lula no palanque se referem à parcela de analfabetos do Brasil que vivem em São Paulo (10,3%, para ser exato, se fosse exata a tabela da secretaria). Como o "Estado mais rico da Federação" tem também a maior população na faixa considerada (22,5% do total), não há nada demais nisso. Ao contrário.
Os colchetes inventados para salvar a cara do presidente nem de longe conseguem fazê-lo. Lula misturou alhos com bugalhos. O melhor indício é que, na primeira frase do trecho em questão, ele fala em 5,7% de analfabetos no Sudeste, portanto de uma taxa, e não da parcela no total nacional (24,7%). Há outros erros no discurso, que a secretaria não julgou necessário "esclarecer", mas reforçam a tese do embaralhamento presidencial com os dados. Lula diz que 19,9% dos analfabetos do Brasil estão no Nordeste, região onde nasceu. Pela tabela de sua secretaria, são 53,3%. O aloprado que colheu números para rechear o discurso talvez tivesse em mente a taxa média de analfabetismo na região, mas somando e dividindo os percentuais dos nove Estados nordestinos fornecidos no quadro propagandístico chega-se a 18,9%. Um ponto percentual de diferença, que no contexto corresponde a um erro de 5%, mas que, noves fora, também pode resultar de sucessivos arredondamentos. A tabela da Secretaria de Imprensa da Presidência cita como fonte a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do IBGE, instituição ciosa das estatísticas oficiais do país. No quadro, porém, a população brasileira total de pessoas com dez anos ou mais aparece com o valor 159.361. Obviamente, trata-se de 159 milhões e quebrados. Faltou indicar que todas as cifras ali relacionadas estão em milhares. Não é só o presidente que se enrola com números no Planalto.
Escrito por Simão Pedro às 13h53
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